KRIPTA – O HORROR EM PRETO E BRANCO

 

Por quase quatro décadas os quadrinhos de terror tiveram lugar de destaque nas bancas brasileiras, vivendo o seu apogeu nos anos 60/70 até desaparecerem quase por completo nos anos 80. O gênero horror aportou no mercado editorial brasileiro em meados dos anos 50 com a revista O Terror Negro (julho de 1950), que inicialmente trouxe as aventuras do herói Terror Negro (Nedor).

A partir do nº 09 passou de fato a publicar histórias de zumbis, monstros, vampiros e outros seres do além, sempre em histórias curtas, que em poucas páginas procuravam levar o medo e a apreensão ao leitor. Com o sucesso dessas revistas e a grande quantidade de títulos nacionais de diversas editoras, o fornecimento de material estrangeiro a ser publicado não foi suficiente para suprir a demanda de publicações nacionais, ainda agravada pela queda do gênero nos EUA. Com isso, muitas revistas passaram a publicar parte de suas histórias feitas por artistas nacionais e outras apostaram em publicações 100% nacionais.

Esse mercado seguia um modelo padrão de narrativa criada com sucesso pela E.C. Comics; histórias curtas, com bastante violência e desfecho com impactos como”.. e quando olhou para o seu filho, reconheceu em seus olhos o mesmo olhar de seu antigo sócio, assassinado por ele há mais de vinte anos..”.  Esse modelo foi quebrado em 1964 pela Warren Publishing Company que, em plena época de censura aos quadrinhos norte-americanos, conseguiu inserir novamente os quadrinhos de terror no mercado editorial valendo-se de uma brecha nas nefastas regras do Comic Code.

A adoção do formato magazine (20.5 x 27.5cm) isentava a editora da obrigatoriedade do selo de aprovação do Comic Code, que visava às revistas em formato americano (17 x 26 cm), pois as em formato magazine eram em geral revistas adultas e não consumidas pelos inocentes leitores.

Composta por um excelente time de desenhistas e roteiristas, a Warren Publishing Company apresentou aos leitores uma nova forma de narrativa nas histórias de terror explorando o terror psicológico e nauseante onde a violência chocava o leitor sem provocar repulsa.

Apesar de adotar o formato de histórias curtas, muitas delas tinham continuação na edição seguinte formando arcos e até mesmo séries com determinados personagens. Inicialmente a Warren começou com os títulos Creepy e Eerie, logo depois vieram Vampirella e posteriormente 1984. Outro diferencial era a inclusão de histórias de suspense e ficção científica sempre com roteiros fortes e inesperados.

O material da Warren permaneceu inédito no Brasil até 1976 onde, até então, predominava a produção nacional e material oriundo de editoras como E.C. Comics, Charlton Comics e mesmo da Marvel Comics (Tales to Astonish, Journey Into Mistery). Quando em Setembro de 1976 a RGE – Rio Gráfica Editora (atual Editora Globo) levou às bancas a primeira edição de Kripta. Idealizada pelo editor Luis Felipe Aguiar, Kripta é até hoje considerada a melhor revista do gênero publicada no Brasil.

Com 68 páginas, capa colorida e miolo em p/b, a RGE investiu também em uma campanha publicitária incluindo rádio e TV, que eternizou a frase “Com Kripta, qualquer dia é sexta-feira, qualquer hora é meia-noite”. Inicialmente Kripta trazia histórias publicadas na Eerie e logo mesclou o seu conteúdo com material da Creepy.

Foram 60 edições publicadas entre setembro/1976 a junho/1981. Os desenhistas nacionais Walmir Amaral e José Evaldo ficaram com a incumbência de fazer as releituras das capas originais, todas pintadas, até a edição de nº 35, mas a partir da edição 36 foram utilizadas somente as capas originais.

Kripta sempre manteve o mesmo número de páginas, mas mudou o formato por duas vezes.  Até a edição 26 adotou um formato intermediário entre o magazine e o formato americano (17 x 24 cm); entre os números 27 e 50 o formatinho (13,5 x 20,5 cm) e em seguida passou para o mini-formatinho (13,5 x 19 cm) até o seu encerramento.

Enquanto roteiristas como Doug Moench, Archie Goodwin, Al Milgrom, Don McGregor, Roger McKenzie, Bruce Jones, Roger Stern, Nicola Cuti, Bill Dubay, Budd Lewis, Steve Skeates, Dave Sims davam vazão aos seus sonhos e pesadelos, desenhistas como Rich Corben – que recentemente abandonara o pseudônimo de Caza – Berni Wrightson, José Ortiz, Howard Chaykin, Frank Miller, Neal Adams, Esteban Maroto, Walter Simonson, Steve Bissette, George Pérez, Martin Salvador, Val Mayerik, Alex Niño, Alfredo Alcala, Leopold Sanchez, Paul Neary, Tom Sutton, Paul Gulacy, Jim Starlin, Gonzalo Mayo, Luis Bermejo, Ramon Torrents, Vicente Alcazar, Wallace Wood, Al Williamson, Alex Toth, Jim Steranko, John Severin, Mike Plogg, Angelo Torres, Leo Durañona, Carmine Infantino, Steve Ditko, Jaime Brocal ilustravam com maestria os roteiros recebidos.

As séries mais marcantes publicadas no Brasil foram Os viajantes do horizonte, Gaffer, Hard John’s Nuclear, A Noite dos Dementes, Dr. Archeus, O invasor, Apocalipse, A Múmia, O veleiro esmeralda e a trilogia (“Os demônios de Jebediah Pan”, “Os demônios de Jebediah Cold” e “Os demônios de Nob Hill”). Alguns personagens ganharam o gosto dos leitores como Darklon o místico, Spectro, Hunter, Dax o guerreiro, Coffin e o inesquecível Pi (“Papai e o Pi” e “O Pi e eu”).

A ambientação das histórias era bem variada e não se limitava a um local ou época, explorando o medo pelo desconhecido através de histórias protagonizadas também por criaturas não-humanas. Os clássicos da literatura de horror  tiveram o seu lugar garantido como os contos de Edgar Alan Poe (“A Máscara da Morte Rubra”, “Os Crimes da Rua Morgue”, “O Retrato Oval” e “O Barril de Amontilado”) , H.P. Lovecraft (“Ar Frio”) e Nathaniel Hawthotne (“O vale das três colinas”) que foram adaptados de forma única e marcante.

Kripta nº26 estreou a seção Cine Kripta com matérias sobre os filmes de terror e ficção em exibição nos cinemas, mas teve vida curta sendo encerrada no nº 32. Em uma época em que não existia a internet ou e-mail, a comunicação entre os leitores era feita através da seção de cartas que ocupava as primeiras páginas da revista. A seção de cartas não se resumia a elogios dos leitores, mas era palco de acaloradas discussões entre defensores e detratores da revista, como o “caso Wellington” com um debate se arrastou por meses. E pela seção de cartas tivemos conhecimento de que a redação chegou a cogitar a inclusão de material nacional nas páginas de Kripta. Entretanto o que aconteceu foi a inserção de algumas páginas com cartuns de humor negro nos superalmanaques feitos por Nilson, Nani, Fernando, Guidacci e Cláudio Paiva.


Dos três almanaques publicados, um deles saiu em formato “grande” com uma história publicada em cores – a única em toda a série – e dois em formatinho, com o terceiro intitulado “Almanaque de Kripta erótica”. Já os dois superalmanaques publicados, foram “Humor negro” e “Terror da Infância”, com 132 páginas cada.

Em 1979 os leitores foram brindados com uma edição especial com 164 páginas, em formatinho, que não passou da primeira edição e que, no ano seguinte, mudou para “Kripta apresenta:”, em formato magazine e periodicidade anual; “Kripta apresenta: Vampirella”, uma coletânea das melhores aventuras da heroína publicadas pela Warren; “Kripta apresenta: Edgar Alan Poe” que reeditava todos os contos de Poe adaptados pela Warren publicados nas páginas de Kripta.

Houve também um almanaque com a reedição das melhores histórias publicadas em Kripta que trouxe uma história inédita “Terceira pessoa do singular” – escrita por Bruce Jones e desenhada por Luis Bermejo.

A RGE editou também a revista Shock, apelidada de revista-irmã, pois o seu conteúdo também provinha das edições americanas de Creepy e Eerie, mas foi cancelada no quinto número.

Kripta marcou época pela qualidade das histórias, além de influenciar o mercado editorial brasileiro e alavancar uma nova leva de títulos de horror. Com destaques para Spektro, Pesadelo e Histórias do Além (Vecchi), o selo Capitão Mistério (Bloch Editores) com 10 títulos de horror da Marvel Comics, Calafrio, Mestres do Terror (D-Art) e edições especiais como O grande livro do terror (Editora Argos).

Em junho de 1981 chega às bancas o último número de Kripta, trazendo como brinde o nº 0 da revista 3ª Geração anunciada como a nova “mutação” de Kripta, com o material licenciado pela Marvel Comics, além de entrevistas e seções sobre cinema e literatura fantástica. Apesar de ter retomado o formato antigo, a nova revista não emplacou e foi cancelada na 5ª edição.

A RGE ainda utilizou do nome Kripta para tentar emplacar três novas revistas sob o selo “Kripta apresenta”: Dr. Corvus, Fetiche e Pânico, todas em formatinho de péssimo tratamento gráfico, além do fraco material selecionado.

Em meados de 2002/2003 a editora Pandora Books cogitou a publicação do material da Warren Publishing Company em uma nova revista no estilo da Kripta. Entretanto na época a questão dos direitos autorais sobre o material autoral publicado pela Warren ainda estava pendente, o que acabou por impedir qualquer negociação pretendida pela Pandora.

Em 2003 um grupo de desenhistas e roteiristas novatos, fãs da Kripta, colocaram no ar o site http://www.ucmcomics.com.br que ao longo de três anos disponibilizaram online sua própria revista de terror nacional, e homenageavam a Kripta tanto no nome quanto no projeto gráfico. O site da ucm atualmente encontra-se desativado, mas pode ser acessado através do site http://web.archive.org.

O material da Warren retorna às bancas e às comic shops brasileiras este ano através da Devir, que está republicando a revista Creepy a partir do primeiro número em encadernados contendo cinco edições cada.

Com essa nova edição novamente qualquer dia será sexta-feira e qualquer hora será meia-noite…

Consulta bibliográfica:

http://www.nostalgiadoterror.com/reportagens_1/kripta.htm

http://www.universohq.com/quadrinhos/2006/n18092006_06.cfm

http://hqmaniacs.uol.com.br/principal.asp?acao=materias&cod_materia=275

http://www.gibihouse.xpg.com.br/rge/warren/warren_rge.html

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ALMANAQUE DO HUMORDAZ

 

A história do Humordaz começou em 1975 no jornal Estado de Minas, mais precisamente em uma pequena coluna assinada pelo Procópio, que aos poucos foi crescendo, quando então a convite vieram os cartunistas Lor e Nilson, além do Dirceu, que se intitulava como frasista.

Tomando cada vez mais espaço na página graças à crescente aceitação dos leitores, o time de colaboradores aumentou com a presença de Afo, Benjamin e Mário Vale, e o resultado foi uma página inteira com o melhor do humor produzido em Minas Gerais, publicada todos os sábados no segundo caderno, batizada como Humordaz.

Dentre os maiores sucessos do Humordaz, mais que os textos do Procópio e as frases do Dirceu, as charges tornaram-se o carro chefe da página. O número de colaboradores crescia cada vez mais: Aroeira, Dirceu, e Clacchi logo entram na equipe.

Dos chargistas, Afo, Lor e Aroeira brilhavam com suas charges envolvendo temas políticos e sociais, em plena era da ditadura militar. A equipe utilizava o mesmo artifício adotado pelo pessoal do Pasquim: Criavam charges “extras” propositalmente mais fortes para serem barradas pela censura, enquanto as outras passavam para a publicação, era a técnica do “boi de piranha”.

Mas uma página semanal era pouco, reunidos periodicamente dentro das galerias do Edifício Malleta, ponto de encontro da boêmia, artistas, jornalistas e intelectuais de Belo Horizonte. Sentados nas mesas do Lua Nova e da Cantina do Ângelo, entre uma cerveja e outra, elaboravam novas charges, discutiam política e principalmente: a criação de uma revista que agregasse todo o trabalho deles de maneira totalmente livre e independente.

Era uma época sem internet, e mesmo o telefone era pouco usado, portanto o que valia eram as cartas e as rodas de amigos reunidos periodicamente de modo quase religioso. Era uma maneira mais humana e calorosa de se ter contato com artistas novos e veteranos, e não raro aconteciam os apadrinhamentos: artistas já firmes no mercado que descobriam novos talentos e os ajudavam nos jornais e revistas para serem publicados, era algo feito com a maior boa vontade.

O nome da revista não poderia ser outro: Almanaque do Humordaz, afinal eles queriam o público leitor que os acompanhavam no Estado de Minas já a quase dez meses, e o nome era o gancho perfeito. Para montar a “Editora Humordaz Sociedade Civil Ltda.” e compor o quadro editorial precisavam de um jornalista para assinar o expediente, e conseguiram isso com Geraldo Magalhães. Nilson que já havia morado e trabalhado com o Henfil, conseguiu dele o editorial para o primeiro número, em um texto que fala sobre a realidade do cartunista/desenhista brasileiro que em busca de espaço para seu trabalho no Rio de Janeiro e em São Paulo (que na época eram os principais centros editoriais do país), encontra a realidade crua a ser enfrentada, principalmente pela concorrência do material estrangeiro distribuído pelos Syndicates por preços irrisórios, tornando impossível uma concorrência. Henfil aponta como solução, as publicações regionais, como o Almanaque do Humordaz.

A imagem que abre esta matéria era para ter sido utilizada como capa para a primeira edição, um trabalho primoroso do desenhista Benjamin, mas com o apoio de alguns colegas, Nilson vetou o uso do desenho para a capa por dois motivos:

1 – Era muito assustadora (para aquela época), e poderia não ser atrativa para os leitores.

2 – Apesar do Benjamin ter trabalhos publicados no Humordaz, a capa do Almanaque deveria trazer uma ilustração dele, do Afo ou do Lor por serem mais cartunescos.

Sendo assim a questão foi fechada: a capa seria do Afo e do Lor, e o desenho do Benjamin seria utilizado como capa do n° 2.

Mas de alguma forma a arte do Benjamim foi publicada na segunda capa da primeira edição sem ao menos uma legenda anunciando-a como capa da próxima edição.

Impressa em off-set, formato 22 x 16 cm, capa em duas cores e miolo em preto e branco, ficou pronta a edição, lançada em junho de 1976.

O lançamento do Almanaque do Humordaz foi feito no Teatro Marília, com toda a pompa merecida. Somente naquela noite foram vendidos cerca de 400 exemplares, todos devidamente autografados pelos autores.

Uma das idéias do Almanaque era ter a cada edição, um desenhista mineiro já consagrado como convidado especial. O escolhido para a primeira edição foi o Nani, cartunista nascido em Esmeraldas, com ótimos trabalhos já publicados no “Pasquim”.

Pouco tempo depois, uma descoberta: cartuns inéditos do cartunista Carlos Estevão, encontrados por Carlos Felipe nos arquivos dos “Diários Associados”, estava decidida a capa da segunda edição e o convidado especial.

Eleito mineiro honorário, o pernambucano Carlos Estevão foi devidamente homenageado no Almanaque do Humordaz (Julho/1976). Reproduzindo a última entrevista dada por Carlos Estevão, publicada originalmente no “Diário da Tarde” de 04/03/1972, praticamente quatro meses antes de seu falecimento.

Um aviso em forma de carimbo informava aos leitores que a publicação era voltada para maiores de 16 anos, a censura batia na porta. Agora o Almanaque do Humordaz era distribuído nacionalmente, mesmo demorando um mês ou dois, a revista chegou a diversos rincões do país.

O Almanaque do Humordaz fazia troça com a política e a sociedade da época, botando o dedo na ferida sem o menor constrangimento, o que levou a equipe a receber uma sinistra notícia: A partir daquele mês (julho/1976), o almanaque estava sujeito à censura prévia, antes de ser publicado, deveria ser enviado à Brasília pra ser avaliado pelo órgão censor, que determinaria o que poderia ser publicado ou não.

A terceira edição já se encontrava toda selecionada e em processo de diagramação, não querendo se submeter à censura prévia, que iria demandar despesas e atrasos, e a certeza de que o Almanaque não sobreviveria de forma digna após uma passagem por Brasília, ficou decidido o fim do Almanaque do Humordaz.

Acabava o Almanaque nas bancas, mas a página semanal no Estado de Minas continuou por cerca de um ano e meio, alegrando os leitores de toda a Minas Gerais. Assim ao lado de “Araruta” (Porto Alegre), “Casa de Tolerância” (Curitiba), “Uai!” (Belo Horizonte), “O Outro” (Recife), “Cabra Macho” (Natal), “Livrão de Quadrinhos”, “Balão” e “Habra Quadabra” (São Paulo), “Risco” (Brasília) e “O Bicho” Rio de Janeiro” compuseram o movimento alternativo do quadrinho nacional dos anos 70.

Referências bibliográficas:

http://maisquadrinhos.blogspot.com/2009/08/nilson-o-guerrilheiro-do-cartum.html

http://www.tribunadacidade.xpg.com.br/afo_cidade_nova.html

http://www.rio.rj.gov.br/arquivo/anexo/catalogo_imprensa_alternativa.pdf

http://hqmaniacs.uol.com.br/principal.asp?acao=materias&cod_materia=562

Almanaque do Humordaz #01 (junho/1976)

Almanaque do Humordaz #02 (julho/1976)

Agradecimento especial ao cartunista Nilson, cujas informações dadas em entrevista, enriqueceram esta matéria.

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O BICHO

 

“Este é o bicho que avisamos que vai pegar:

Gordo de 32 páginas.

Grampeado no lombo.

De cor variável por fora

E preto e branco por dentro.

Enfim, um bicho de papel.

Mas de espécie nunca vista, inteiramente inédita por estas bandas: uma revista de HQB. Histórias em Quadrinhos Brasileiras.

Para adultos, de jovens para cima.

Quadrinhos cômicos e sérios, cartuns, desenhos de humor e desenhos.

Os melhores daqui e de agora, daqui e de fora, nunca esquecendo os daqui de ontem.

O Bicho é isso aí, ou é isso aí, bicho. Nenhum bicho específico, mas no sentido geral.

Bicho de criação, bicho carpinteiro, bicho de sete cabeças. De fato, O Bicho já estava por aí, no ar, no solo e subsolo, desmontado mas novo em folha, faltando só juntar as partes, para se apresentar inteiro e poder conquistar, pela qualidade, o título de Bicho de estimação.”

Com esse texto de apresentação, o cartunista Fortuna dava as boas vindas ao leitor na primeira edição de O Bicho. Em meados de março de 1975, dois meses após a distribuição gratuita do n° zero, chegava às bancas a primeira edição de O Bicho.

Conta a lenda que, na época em que Fortuna se preparava para lançar sua revista, Luiz Gê foi conversar com ele e ficou muito satisfeito em saber que o veterano cartunista estava se baseando na experiência da Balão como orientação do seu projeto. Luiz Gê teria dito: “Gostei de ouvir isto! O que me assegura que entramos para a história”.

Lançado pela editora Codecri (Comitê de Defesa do Crioléu), e editado por Fortuna, com uma tiragem de 15 mil exemplares, O Bicho chegou às bancas trazendo a nata dos cartunistas da época, além de resgatar trabalhos antigos de cartunistas e desenhistas brasileiros. Havia espaço também para o material estrangeiro, devidamente selecionado, privilegiando artistas pouco conhecidos por aqui.

A importância desta revista encontra-se no fato de que, trazendo aos quadrinhos a questão do experimentalismo da linguagem – ela veiculava histórias produzidas no intuito de bater de frente com as antigas concepções estéticas baseadas nas HQs enlatadas que eram trazidas ao país até então, além da crítica ao moralismo presente em nossos costumes.

DISSECANDO “O BICHO”


Contando com Luiz Gê e Miguel Paiva como colaboradores internacionais, a equipe principal de colaboradores da revista, já tinha passagem pelas páginas dos jornais Pasquim e Pingente, respectivamente: Nani, Coentro, Guidacci, Fortuna, Mollica e Duayer. Laerte, Dirceu Amádio, Paulo Caruso e Crau também marcaram presença, sendo que alguns deles já colaboravam com a revista Balão.

Aos poucos o time aumentou: Mariza, Michele, Luscar, Lapi, Chico Caruso, Miguel Paiva, Redi, Geandré, Luiz Fernando Veríssimo, Nilson, Canini, Parrot e Fausto.

A revista trazia sob o título o lema: “Cartuns e Quadrinhos não enlatados”, o que dava lugar a artistas como Quino, Roger Brand, Crumb, Wolinsky e Mary Kay Brown, entre outros, lugar garantido em suas páginas.

O Bicho teve vida curta, apenas oito edições, sendo seis editadas pela Codecri e as duas últimas pela EMEBE Editora Ltda. A cada edição trazia uma matéria especial sobre quadrinhos antigos, resgatando a memória de artistas como Seth, Luiz Sá, Carlos Estevão. Mas foi na segunda edição, que O Bicho publicou com exclusividade, todos os detalhes da batalha do Henfil para publicação do Fradim nos Estados Unidos. Mostrando o modelo do contrato padrão da UPS, com as devidas alterações feitas pelo Henfil, curiosamente anos depois Bill Waterson (Criador de Calvin & Haroldo), se valeu de praticamente as mesmas exigências em seu contrato com a UPS. Essa matéria nunca foi totalmente reproduzida em nenhuma outra publicação, tornando-a leitura obrigatória a todos os leitores.

Na terceira edição, Fortuna foi até o Sanatório Azevedo Lima entrevistar o desenhista Luíz Sá, que se encontrava internado para tratamento de tuberculose. Nessa entrevista, Luiz Sá fala de toda a sua carreira, inclusive sobre os seus desenhos animados. Através desta entrevista, um colecionador identificou ter em seu acervo parte das películas originais de um de seus desenhos animados, e dois meses depois, O Bicho reproduziu em suas páginas, as imagens dessas películas.

Na quarta edição, foi resgatada uma série de tiras produzidas em 1948, desenhadas por Carlos Estevão e escritas por Millôr Fernandes ( que na época assinava como Vão Gôgo). Publicadas no Diário da Noite: “Ignorabus, o Contador de Histórias” era totalmente diferente das tiras convencionais da época, brincando com os recursos da metalinguagem e do non-sense, a tira terminava propositalmente em um loop de flashbacks.

A sexta edição de O Bicho, que foi a última editada pela Codecri, publicou uma hq de ficção científica chamada: “A Terra”, escrita por Dirceu Amádio e ilustrada por Leo (Luiz Eduardo de Oliveira). Dirceu Amádio que já era colaborador da Balão, anos depois veio se tornar empresário do setor metalúrgico, e foi reconhecido em 2001 como um dos empresários que mais investiu no setor cultural. Enquanto isso Leo, passou a viver na frança, onde se consagrou como desenhista, admirado mundialmente pelos álbuns da série Aldebaran (publicados no Brasil pela Panini - maio/2006). Leo em entrevista publicada na revista Wizmania # 42 (panini – março/2007), declarou não ter sido pago pelos editores, pela história publicada em O Bicho.

A oitava e última edição de O Bicho, trazia a quadrinização da música “Chiquinho Azevedo” (Gilberto Gil – 1976), com o roteiro elaborado por Fortuna e ilustrada por Crau. Reproduzia também uma nota do JB, que comemorava o acordo entre Maurício de Souza e a Warner, para a publicação das tiras do Pelezinho (outubro/1976), e que em menos de um ano ganhou revista própria na Editora Abril (agosto/1977).

E foi assim que em novembro de 1976, O Bicho apareceu pela última vez nas bancas, apesar de poucos números lançados, tornou-se ao lado da Balão, um dos marcos editoriais que abriu caminho para novos artistas e formulações temáticas e críticas com total liberdade aos autores. Somente dez anos depois tivemos uma nova publicação nestes moldes: Circo (outubro/novembro – 1986), mas isso é assunto para outra matéria.

Consulta bibliográfica:

http://www.itaucultural.org.br/aplicExternas/enciclopedia_ic/Enc_Artistas/artistas_imp.cfm?cd_verbete=3855&imp=N&cd_idioma=28555

http://hqmaniacs.uol.com.br/principal.asp?acao=materias&cod_materia=562

http://midia-radical.blogspot.com/2008/08/imprensa-alternativa.html

http://blogln.ning.com/profiles/blogs/o-pasquim-quarenta-lances

http://br.groups.yahoo.com/group/EuroQuadrinhos/message/1626

http://lambiek.net/artists/l/leo.htm

http://jornalivros.co.cc/?p=235

http://www.guiadosquadrinhos.com/thumb.aspx?cod_tit=bi212100&esp=&total=9

Agradecimento especial ao Fábio Dark pelo scan das entrevistas.

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SEGUINDO A TRILHA DO ASSASSINO

 

Por Katchiannya Cunha

Em 2004, a Panini Comics prometeu republicar no Brasil aquele que ainda é considerado por muitos como um dos melhores mangás de samurai de todos os tempos: Lobo Solitário (Kozure Okami no original).
Três anos depois, o samurai renegado Ito Ogami e de seu filho, Daigoro, finalizaram, no Brasil, a sua longa viagem em busca de vingança contra o clã Yagyu.

Criado em 1970 por Kazuo Koike (roteiros) e Goseki Kojima (desenhos), esse popular e clássico mangá foi um dos primeiros do gênero (excluindo o trabalho do genial Osamu Tezuka) a introduzir os quadrinhos japoneses no mundo ocidental. A saga do Lobo Solitário e seu filhote influenciou uma geração de artistas tanto na Terra do Sol Nascente quanto no lado de cá do planeta.
Publicada pela revista semanal Kodansha, esta série teve 114 capítulos em 14 edições (no Brasil foram 28 edições lançadas pela Panini). Além dos quadrinhos, Lobo Solitário teve, no Japão, seis adaptações para o cinema e duas séries para TV durante os anos 1972 e 2002.
Em linhas gerais, a trama da série é a seguinte:
Na época do Japão feudal, existiam vários senhores feudais que estavam sob as ordens do Shogun, o mais poderoso e importante dentre os senhores feudais. Embora o Imperador ainda fosse respeitado como figura de poder e ascendência divina, era o Shogun quem efetivamente governava o país. Para manter seu domínio, o Shogun designou três famílias para ocuparem os cargos de ninjas, assassinos e executores.
A família Kurokawa ficou com o cargo de ninja, devido à sua própria tradição. Os ninjas eram responsáveis por observar todos os feudos no Japão, incluindo os senhores feudais. Qualquer atitude suspeita era informada ao Shogun. Se algum dos subordinados tramasse se opor, se rebelar ou se voltar contra o Shogun, o clã dos assassinos (título dado à família Yagyu) era acionado e o traidor era prontamente executado.
Em princípio, a família Yagyu também mantinha o título de executores. Os executores eram responsáveis por auxiliar os nobres senhores feudais que se arrependessem de sua traição ao Shogun em um ritual chamado harakiri, ou usando um nome mais respeitável, seppuku.
O seppuku é um ritual onde a pessoa pega uma lâmina e começa a cortar o ventre, eviscerando-se. Para “aliviar” o senhor feudal ou qualquer outro que fizesse o ritual, o Executor ceifava a cabeça do condenando, deixando uma aba de pele do pescoço sem ser cortada para que a cabeça não rolasse no chão.
Depois de anos mantendo o título de executores, os Yagyu foram substituídos pelos Ogami na tarefa por decisão do Shogun, que realizou um teste envolvendo o samurai Ito Ogami e o mais jovem dos Yagyu, Retsudo.
Inconformados com a perda do título, os Yagyu tramaram contra Ito e sua família, forjando provas que levaram o Shogun a crer que Ogami havia lhe traído. Os Yagyu também assassinaram a esposa de Ito, que, mesmo agonizando, deu a luz a Daigoro Ogami.
Assim, Ito parte, juntamente com seu filho, em uma jornada de ódio e violência para limpar seu nome e vingar a morte de sua esposa e de sua família, percorrendo a espinhosa trilha do assassino.
A coleção completa de Lobo Solitário soma mais de 8.700 páginas, distribuídas em 28 volumes. A primeira edição ocidental da obra de Kazuo Koike e Goseki Kojima foi lançada nos Estados Unidos pela First Comics, em 1987, como uma série de mensal, que seguiu o formato americano, número de páginas entre 64 e 128 páginas e ordem de leitura invertida para o padrão ocidental, com capas de Frank Miller e mais tarde por Bill Sienkiewicz, Matt Wagner, Mike Ploog e Lago Ray. Em 1991 o título foi cancelado sem completar a série, publicando menos de um terço da série total.

Em 2000, a Dark Horse Comics começou a publicar a série, completando com o volume 28 em 2002. Reutilizou todas as ilustrações feitas por Frank Miller, bem como várias feitas por Sienkiewicz, e encomendou novas capas a Wagner, Guy Davis, para vários volumes das coleções.
Em 2002, Mike Kennedy e Francisco Rui Velasco criaram a série: Lone Wolf 2100, com a participação indireta de Koike. Em um futuro pós-apocalíptico, Daisy Ogami, filha de um cientista de renome, e Itto, protetor e guarda-costas de seu pai, tentam escapar do maléfico regime da Cygnat Owari Corporation. Esta série não foi recebida pelo público, tornando-se um fracasso.
Lobo Solitário chegou a ser publicado, de forma bastante descontinuada, aqui no Brasil, primeiro pela Cedibra em 1989. Além de seguir os modelos gráficos, a edição da Cedibra também copiou da matriz norte-americana o destino de permanecer incompleta. A série foi cancelada em 1989, em seu nono número.
No ano seguinte, a editora Nova Sampa retomou a publicação, num formato menor, mas com mais páginas por edição. A nova versão também trazia como novidade as belas capas pintadas por Bill Sienkiewicz. Porém, essa versão almanaquinho seguiu os passos da anterior, sendo também interrompida em seu nono número, que chegou às bancas com uma capa ilustrada por Matt Wagner.
No início dos anos 90, a Nova Sampa ainda insistiu lançando Lobo Solitário como revistinha, com menos páginas, capas ruins e menor qualidade gráfica, numa tentativa que se encerrou em seu quinto número.
O primeiro filme da série do Lobo Solitário foi realizado pela Katsu Productions, e distribuído pela Toho International Co. “Kozure Okami: Kowokashi udekashi tsukamatsuru” de 1972. O diretor Kenji Misumi pediu para que os criadores do mangá, Koike Kazuo e Goseki Kojima, fossem os roteiristas responsáveis pela adaptação. O primeiro filme da série foi muito bem produzido, com direção inventiva e fotografia exuberante e excelente trilha sonora. As cenas de ação são extremamente bem feitas. Neste é contada a origem do personagem que anda com seu filho enquanto ganha a vida como mercenário assassino.
No mesmo ano foi lançado o segundo filme da série: “Kozure Okami: Sanzu no Kawa no ubaguruma”, ainda com a mesma equipe do primeiro longa-metragem, este possui o roteiro baseado em três histórias publicadas nos quadrinhos.
Ainda em 1972 saiu o terceiro filme do Lobo Solitário: “Kozure Okami: Shinikazeni ubaguruma mukau”.
O diretor Buichi Saito pegou a série ainda em 1972, lançando o quarto filme da série: “Kozure Okami: Oya não kokoro ko no kokoro”. Este é um filme mais para os fãs de artes marciais que propriamente para os fãs do Lobo Solitário.
Kenji Misumi volta à direção da série em 1973 com o filme: “Kozure Okami: Meifumando”.
No sexto e último filme da série, “Kozure Okami: Jigoku e ikuzo! Daigoro Daigoro” de 1974, o diretor Yoshiyuki Kuroda não deixa cair à qualidade dos outros cinco e mostra o conflito final entre Ogami Itto e o clã de Yagyu.
O Lobo Solitário ganhou ainda uma versão americanizada em 1980: “Shogun Assassin”, dirigido por Robert Houston e Kenji Misumi. Que nada mais era do que a condensação dos primeiros filmes originais. “Shogun Assassin” chegou a ser lançado em VHS no Brasil.
Lobo Solitário foi levado à TV sob a forma de seriado por duas vezes. Kozure Okami foi transmitido em três temporadas de 26 episódios cada, com 45 minutos de duração cada. Essa série foi exibida no Brasil nos anos 80 pela TVS (atual SBT), como “O Samurai Fugitivo”.
Uma segunda série de tevê foi ao ar em outubro de 2002-2004. Na nova versão Itto Ogami é interpretado pelo conhecido ator japonês Kinya Kitaoji, e seu filho Daigoro é interpretado pelo ator de apenas 3 anos Tsubasa Kobayashi. A nova série trouxe pequenas mudanças na história original do mangá, num esforço de trazer as aventuras do Lobo Solitário mais perto da realidade.

Surgiram diversas notas na internet de que o mangá ganharia uma versão cinematográfica hollywoodiana e seria dirigida por Darren Aronofsky (Réquiem para um Sonho). O filme seria produzido pela Paramount Pictures e a Mutual Film Company. Mas ao contrário dos ardentes desejos dos fãs da série, o filme não se passaria no Japão Feudal, e sim nos dias de hoje. Nenhuma novidade sobre a produção foi divulgada depois desses rumores iniciais.
Por causa de sua imensa popularidade no Japão e seu status cult no Ocidente, Lobo Solitário gerou um impacto duradouro sobre a cultura popular no Japão e em outros lugares. Elencamos abaixo as principais “homenagens” prestadas a essa obra:
. Lone Wolf and Cub também influenciou os quadrinhos americanos, mais notadamente Frank Miller, que incorporou a linguagem de mangá aos seus mais famosos trabalhos como Cavaleiros das Trevas, Ronin e Demolidor.
. Escritor Max Allan Collins reconheceu a influência do mangá Lobo Solitário, em sua graphic novel “Road to Perdition” (Estrada para Perdição – Via Lettera – 2002), em entrevista à BBC, declarou que “Road To Perdition” é uma homenagem clara a Lobo Solitário.
. O game: “Final Fantasy X” apresenta um personagem chamado Yojimbo, que pode ser contratado para atacar os inimigos do jogador. Um de seus ataques é realizado por um auxiliar (neste caso um cão), que atende pelo nome de “Daigoro”.
. O quadrinho “Usagi Yojimbo” (Usagi Yojimbo – Via Lettera – 1999), também tem referências a Lobo Solitário, em dois personagens conhecidos como “Lone Goat e Kid”.
. O álbum “Liquid Swords” do rapper GZA contém vários trechos em áudio de “Shogun Assassin”, incluindo o monólogo de Daigoro, a flauta do tigre caído, e a escolha entre a bola e a espada.
. A canção “Danger! Danger!” da banda britânica Sonic Boom Six contém uma das falas usadas em “Shogun Assassin”, quando os personagens entram na cidade.
. Na conclusão do episódio 22 de “Samurai Champloo”, tanto Itto Ogami e Daigoro aparecem quando um meteoro atinge o solo. Daigoro é mostrado, dizendo: “Olha, um cogumelo!” referindo-se à nuvem de detritos deixados pelo impacto.
. No episódio 24 de “Samurai Champloo”, enquanto o personagem Fuu está perguntando sobre Kasumi Seizou, uma mulher diz que ela foi vista cuidando de Daigoro.
. O volume 2 do filme “Kill Bill” inclui uma cena em que um ex-assassino e sua filha assistem “Shogun Assassin” na TV.
. No romance de Peter David “Tong Lashing”, o personagem Sir Apros, encontra um homem acompanhado pelo filho que, embora não nomeados, tem uma grande semelhança com Itto Ogami e Daigoro.
. O escritor Cormac Mcarthy ‘s em seu livro “The Road”, evoca a principal imagem de Lobo Solitário: um velho empurrando o filho dentro de um carrinho de compras em uma América pós-apocalíptica, repleta de perigos, onde a luta pela sobrevivência é travada a cada minuto.
. Genndy Tartakovsky, criador do Laboratório de Dexter, faz uma homenagem a esse mangá em dois episódios de uma das melhores séries animadas da atualidade e ganhadora do Emmy: Samurai Jack. Em dos episódios da série (episódio XIX), Jack encontra as ruínas de sua terra natal e relembra sua infância. Em uma das cenas, temos a participação de Ogami e Daigoro, numa sensacional cena de luta. Já no episódio LII é o próprio samurai Jack que faz às vezes de Ito Ogami, viajando com um bebê que salvara de um bando de ogros, tal qual o Lobo Solitário faz com seu “filhote” Daigoro. (que foi um dos artistas americanos que mais se rendeu ao genial trabalho de Koike e Kojima.
De qualquer forma, mesmo depois de cerca de trinta anos de seu lançamento, Lobo Solitário ainda é lembrada e reverenciada por suas infinitas e sólidas qualidades artísticas e narrativas. E é exatamente por todos esses motivos que devemos mesmo é nos sentir honrados pela oportunidade de lermos a épica saga e obra-prima de Kazuo Koike e Goseki Kojima.

Referências bibliográficas:
http://maisquadrinhos.blogspot.com/2008/03/longa-jornada-do-lobo-solitrio.html
http://www.gibitela.hpg.ig.com.br/lobosolitario.htm
http://en.wikipedia.org/wiki/Lone_Wolf_and_Cub

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TUBARÕES VOADORES – A HQ QUE VIROU MÚSICA

 

Não é novidade que os quadrinhos e a música tem andado de mãos dadas há muito tempo, no HQ Press publicado em Sandman #07 (Editora Globo, maio/1990), Sidney Gusman elencou os principais “flertes” destas duas artes:
- Músicas / músicos / bandas que viraram quadrinhos.

- Personagens de quadrinhos que inspiraram letras de música.

- Citações de músicas nas hq’s.

Diversas bandas utilizaram os quadrinhos em seus encartes para ilustrar suas músicas como a banda Kães Vadius no álbum “Psychodemia” (Ataque Frontal – 1987), onde o encarte era uma gigantesca HQ que amarrava todas as letras em uma única história. Mas os méritos para a primeira HQ a virar música pertencem a “Tubarões Voadores” de Arrigo Barnabé e Luíz Gê.

No início dos anos 70 na USP, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, dois colegas de curso: Arrigo Barnabé e Luiz Gê iniciavam suas carreiras. Enquanto Luiz Gê publicava seus primeiros trabalhos, Arrigo Barnabé começava a traçar o seu caminho que o levaria a ser o porta-bandeira do movimento musical chamado “Vanguarda Paulistana”. Arrigo era recém chegado na cidade de São Paulo, e Luiz Gê foi quem o guiou pela cidade revelando os detalhes ocultos da narrativa urbana que somente São Paulo possui, narrativa essa que ele empregava em seus quadrinhos, cuja paixão contagiou o colega.

Em 1980, Arrigo Barnabé após um desentendimento com a gravadora Polygram, lança de forma independente o seu primeiro LP, o álbum “Clara Crocodilo” (15 de novembro de 1980), cuja arte da capa foi feita por Luiz Gê. “Clara Crocodilo” consagrou a influência que Arrigo teve das hq’s. Das oito faixas do disco, seis descrevem tipos e situações da noite paulistana, enquanto as outras duas faixas, narram o surgimento do anti-herói mutante Clara Crocodilo, que enfrenta cientistas inescrupulosos e a própria polícia. Era a linguagem dos quadrinhos transposta para a linguagem musical.

Em 1984 sob contrato da gravadora Ariola (que pouco tempo depois foi comprada pela Polygram), Arrigo Barnabé recebeu sinal verde para produção de um novo disco, que inicialmente se chamaria “Crotalus Terrificus” cuja arte foi encomendada ao amigo Luiz Gê. Os primeiros esboços para a capa do álbum eram de uma cobra na forma de uma clave (coincidentemente o segundo lp de Itamar Assumpção lançado na mesma época utilizou uma arte semelhante em sua capa). Um dia Luiz Gê recebeu a visita de um amigo em sua casa, onde este ao observar um pôster dos Tigres Voadores (esquadrilha aérea composta por aviadores americanos, cuja característica visual em seus aviões P-40, era uma enorme boca de tubarão pintada), deu a idéia de uma hq protagonizada por eles, porém dentro da cidade. Imediatamente Luiz Gê estalou a idéia de ao invés de aviões, seriam tubarões, tubarões voadores e iniciou os esboços de modo tão frenético que deixou o amigo pasmo. Nos dias que se seguiram, foi-se montando o roteiro da história e acertando os detalhes, até finaliza-la.

Quando Arrigo Barnabé foi em seu ateliê para tratar sobre o disco novo, viu a hq dos tubarões e disse: “Ah!! Luis Gê, vou musicar essa historinha e o disco vai chamar “Tubarões Voadores”. O que era um antigo projeto de ambos, fazer uma hq com trilha sonora se concretizou naquele momento.

Medindo o tempo de leitura de cada quadrinho, Arrigo Barnabé foi musicando quadro a quadro, obtendo um resultado surpreendente, algo inédito até então. Redefinindo o nome do álbum para “Tubarões Voadores” cuja faixa-título abria o lp, manteve a hq completa sob a forma de encarte do álbum.

Lançado em 1984 numa parceria da Ariola/Barclay, que levou Arrigo Barnabé a obter reconhecimento internacional, e foi eleito pela revista Jazz Hot como um dos melhores álbuns do mundo, pois ali ele repetia a receita utilizada em “Clara Crocodilo”: o uso da linguagem dos quadrinhos em sua música.

O show “Tubarões Voadores” viajou o Brasil, em um espetáculo completamente teatral, com um cenário inovador, onde chamava a atenção uma rampa por onde descia um carro em alta velocidade. Os cenários, figurinos e a iluminação reproduziam com exatidão a historia em quadrinhos do Luis Gê, numa antecipação em muitos anos de Sin City.

Enquanto isso a hq foi “republicada” no jornal independente “Extra”, e nos livros “Território de Bravos” (Luiz Gê – Editora 34 – 1993) e “Análise textual da história em quadrinhos: uma abordagem semiótica da obra de Luiz Gê” - Antônio Vicente Pietroforte e Luiz Gê (Editora Annablume – setembro/2009).

Em 1999 o álbum “Clara Crocodilo” foi lançado em cd, pouco tempo depois foi a vez de “Tubarões Voadores”, onde para se adequar ao formato do cd, Luiz Gê teve de reestruturar o encarte com a hq. Hoje esses cd’s se encontram fora de catálogo.

Enquanto em “Clara Crocodilo” tinha-se um anti-herói pelos esgotos e subterrâneos de São Paulo, em “Tubarões Voadores” ganhamos enormes tubarões voando sobre as ruas, devorando adultos e crianças. Ali Luiz Gê através dos tubarões, sintetizou todo o medo e paranóia da classe média, que se tranca dentro de seus apartamentos e carros vedados com insulfilm se isolando dos demais habitantes, por não se sentirem seguros. Onde um passo em falso, uma janela aberta na hora errada, pode resultar em uma absurda tragédia. A hq começa em tom de humor, humor negro, diga-se de passagem, evoluindo para o puro terror, onde a violência é mostrada sem glamour ou justificativa, entre cada ataque dos tubarões são mostradas cenas de violência urbana cotidianas de qualquer cidade: acidentes, mutilações, crimes, atropelamentos e suicídios. Tudo isso se encerra com a cena final de um corpo sendo dilacerado por vários tubarões sob a legenda: “Pois no coração do prudente, repousa a sabedoria”.
Para transpor para a música todo esse clima de terror e medo, Arrigo Barnabé dividiu os vocais com Vânia Bastos, e introduziu a superposição de vozes e instrumentos em tonalidades diferentes para criar a percepção de profundidade do desenho, dando a ilusão de movimento. A utilização de citações musicais (ciranda, cirandinha) ajudam a dar clima à cena, e a hq reforça a dimensão sangrenta e dolorida, tornando visualmente impossível escutar a música de maneira entorpecida.

Agora, tranquem portas e janelas, coloquem os cadeados nos portões e acompanhem agora o vídeoclip não-oficial de “Tubarões Voadores” feito pelo fã Jeffin.

Consulta bibliográfica:

http://bethsalgueiro.multiply.com/journal?&page_start=20

Façanhas às próprias custas: a produção musical da Vanguarda Paulista (1979 – 2000) – José Adriano Fenerick

Revista Graffiti 76% Quadrinhos # 04 (1998)

Trilha Sonora: Topografia semiótica paulistana nas canções independentes das décadas de setenta e oitenta – Fátima Amaral Dias de oliveira (janeiro/1990)

Agradecimento especial ao Luiz Gê, pelas informações forncecidas, que enriqueceram em muito esta matéria.

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